Talvez o meu álbum preferido

Durante a pandemia, surgiu um determinado desafio nas redes sociais, entre muitos outros, que se tornou viral e que me veio bater à porta através de uma amiga. A ideia era nomear os discos que mais nos marcaram ao longo vida.

Na altura, atirei com uma resposta rápida e bastante sucinta. Resolvi fotografar a minha parece da sala, onde figuravam dois picture discs: o "Low" de David Bowie e o "Velvet Underground & Nico"... sim, o da banana. O texto resumia-se a uma pequena frase, qualquer coisa como: "Se estão na minha parede, não há que enganar!".

Em todo o caso, e apesar da minha habitual dificuldade em elaborar um top 10, seja do que for, consigo eleger um álbum que nunca me largou e do qual tenho 3 versões diferentes: "Secrets Of The Beehive", de David Sylvian, editado originalmente em 1987.

É um disco fantástico, ideal para ouvir em silêncio numa tarde chuvosa de Outono. A voz sussurrada de Sylvian e os arranjos de Sakamoto aquecem facilmente o ambiente e a alma.

Tudo me parece perfeito e de uma elegância rara. As letras falam-nos de emoções, de solidão. A própria capa está em sintonia com todo o ambiente que vamos sentir durante a audição. Curiosamente, é da autoria de Vaughan Oliver, o homem que marcou o grafismo da 4AD nas décadas de 80 e 90.

Gosto especialmente do tema "When Poets Dreamed of Angels", que começa com uma guitarra acústica muito trabalhada, quase flamenga. A voz de Sylvian canta-nos uma letra perturbadora - “She rises early from bed… The bruises inflicted in moments of fury” - mas nem a pesada temática impede o nosso prazer ao ouvi-lo. A meio da música, ficamos só com o instrumental, em crescendo e com percussão diversa, a tal ponto que julgo ouvir castanholas, entre outros apontamentos.

A edição em CD traz uma versão de "Forbidden Colours", incluída como bónus. Originalmente composta por Sakamoto para o filme “Merry Christmas, Mr. Lawrence", tornou-se um dos meus temas preferidos de sempre. É a cereja no topo do bolo!

Recomendo!

J. Miguel Fernandes